ENTRE PREDICADOS E PROTOCOLOS: FUROR SANANDI, FORMALISMO PRÁTICO E O CASO A CASO NA CLÍNICA INSTITUCIONAL COM PESSOAS TRANS E TRAVESTIS
DOI:
https://doi.org/10.56238/bocav24n73-018Palavras-chave:
Psicanálise, Clínica Institucional, Pessoas Trans e Travestis, Furor Sanandi, Caso a Caso, Protocolos ClínicosResumo
O artigo examina impasses éticos da clínica institucional contemporânea com pessoas trans e travestis em um contexto marcado pela proliferação de regimes de nomeação – diagnósticos, categorias identitárias e dispositivos protocolares – fundamentais para a garantia de direitos, mas problemáticas quando se tornam bússolas clínicas exclusivas. A partir da orientação da psicanálise, sustenta-se que o sujeito do inconsciente não se reduz aos predicados que o nomeiam, de modo que nenhum predicado é suficiente para circunscrever o ser. Analisa-se, então, a tensão entre o furor sanandi – excesso de zelo curativo – e o formalismo prático – entendido como a redução da clínica à aplicação de procedimentos –, mostrando como, em contextos institucionais atravessados pela urgência social e por exigências de eficiência, o cuidado pode deslizar para a tutela. Por fim, propõe-se a defesa de um protocolo do caso a caso como operador ético da direção do tratamento. Conclui-se que a psicanálise mantém sua função na clínica institucional quando resiste tanto à lógica da predicação identitária quanto à absolutização dos protocolos, preservando o lugar do sujeito no interior das práticas de saúde.
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